8 de jun. de 2023

Uma crônica do amor à terra.

 


O monge, depois de dez anos no monte da sua solidão, acordou um com um forte brilho de aurora no seu rosto e sentiu-se demasiado enfastiado com o seu deserto espiritual e refletiu.

- “Preciso ir ao oásis onde estão os homens”.

O sábio arruou seu alforge, calçou a sua sandália e se pôs a caminho. Na longa descida adentrou no seu imaculado pensamento e mais ou menos conjecturou que as colmeias do conhecimento precisam ser esvaziadas para alimentar os famintos que no verão ignoram o inverno da existência.

Ao chegar na planície, o velho monge, um apaixonado pelo recolhimento teve as suas janelas da percepção abertas nas quais ele pode ver uma larga planície de má consciência entre os homens. Nas conjecturas do seu imaculado conhecimento ponderou e persuadiu a si mesmo a espalhar o seu mel para os homens que vivem no verão.

- “Há vergonha e má consciência no amor dos homens, pois eles também amam a terra e tudo que é terreno, mas há vergonha no seu amor”.

Por serem desprezadores do corpo, abjuram as próprias entranhas e há odor de putrefação onde os homens estão reunidos, averiguou o monge. Num pacto com seu ato de conhecimento, o erudito persuadiu a si mesmo de que a vergonha de fazer a vontade das próprias entranhas espalhou a mentira e a dissimulação de forma que há muita ‘felicidade’ em uma vida despida de desejo e com a vontade aprisionada, quase morta sem a potência criadora nas suas garras e sem o impulso da cobiça e do egoísmo.

Então o velho mestre concluiu e espalhou seu mais puro mel:

- “Há muita inocência onde há vontade de criar e cultivar a si mesmo e quem deseja ser um criador tem a vontade mais pura! Por isso é belo ter vontade de amar, mas também de declinar! Ter vontade de amar, é possuir boa vontade de igual maneira com a morte!”

E ao por fim, o monge sacudiu sua túnica, ouviu as suas entranhas, acatou as ordens do seu espírito e deixou o seu mais puro conhecimento:

- “Sede fiéis à terra e não acrediteis naqueles que falam de esperanças supraterrâneas. Envenenam o corpo e aprisionam o espírito!”

Assim falou o esse humanista, demasiado humano. 


13 de abr. de 2020

ESTAMOS NA ERA DO HOMEM TOSCO!


O "TIPO TOSCO SEMPRE:"
- Nega a ciência;
- Afirma o desmatamento e o Agrotóxico;
- Nega o aquecimento global;
- Está disposto a burlar pequenas regras de convivência social: (trânsito, filas, troco...)
- Afirma a religião rasa e irrefletida;
- Procura meios de tapear;
- Não honra a palavra e muda a versão dos fatos ao seu interesse;
- Os argumentos e fatos históricos não lhe interessam 
- Odeia o Estado, mas sempre quer tirar vantagens da coisa Pública;
- Sonega impostos e falsifica notas fiscais;
- Faz o elogio à Milícia
- Escrete 'et cetera' ao invés de "etc"
- O TOSCO NÃO É BURRO E NEM LOUCO! 👉🤡👈, ele escreve até em Jornais! 


Eis que numa manhã de sexta-feira o “Tipo Tosco” se manifestou num tradicional  semanário da região do contestado. A opinião do “tosco” provinciano, mas reconhecido por suas colunas conservadoras dissertava sobre o “Comunismo” e logo no primeiro parágrafo o “homem tosco” afirma, negando a história e  distorcendo a linha do tempo ao seu interesse, quando comenta Trótski:

Adotou, copiando da China, a bandeira da cor vermelha como símbolo da luta da classe operária”. O “Tipo tosco provinciano”, sem honestidade intelectual, esquece que a revolução chinesa, concluída em 1949, ano que adotou a bandeira vermelha com o fim da guerra civil, que não tem nada a ver com a inspiração para a temida bandeira vermelha soviética (revolução de outubro de 1917).  Caro tosco, a bandeira vermelha como símbolo do movimento operário nasceu no século XVIII.

Em seguida, “o tosco” destila todo seu ressentimento e ódio ao pobre, ao trabalhador, ao operário negando toda a história dos movimentos operários, das políticas públicas e até da própria constituição que garante o trabalho como um direito social. “O tosco”, ele mesmo, é um operador do direito que odeia o estado e está predisposto a eliminar a Justiça do Trabalho. No seu plano mental se trata de uma justiça comunista de orientação trotskyana  e pode “instigar os pobres contra os ricos, provocar discriminação entre raças”.

Por fim, como argumentos e fatos históricos não lhe interessam, “o tipo tosco” conclui: “Assim como Trótski, os defensores dessas ideologias vivem na opulência e na esfera dos ricos. O melhor exemplo doméstico é o do ratoneiro Lula da Silva (...) Querem socializar os bens dos outros, mas o que lhes pertencem não. São os comunistas de smoking!”  

Esquece que Lula, o presidente eleito, escreveu a carta aos Brasileiros em 2002, (Cf.: em encurtador.com.br/uAUV8)  em defesa da Economia, do “Superávit primário”, apostou na economia de tipo capitalista, pondo todas as suas fichas na geração de empregos (exploração da classe trabalhadora) e, claro, apelou pela responsabilidade social. 

Caro “homem tosco”, saia do Oco: para Leon Trótski Lula seria apenas um pequeno burguês  defensor do “bem estar social” capitalista tupiniquim e adversário do socialismo e da Revolução Permanente.

16 de jun. de 2017

Uma coisa perigosa: a ignorância e a crença 
transformadas em opinião.



Eis que numa manhã de sexta-feira lemos no respeitado jornal A Semana, de Curitibanos - SC, a opinião de um conhecido advogado provinciano e reconhecido colunista do semanário sobre o ensino de filosofia. Alega o ‘doutor’ que a filosofia se restringe à crítica aos valores morais, ao aprendizado de enfadonhas teorias filosóficas e ao conhecimento superficial de conteúdos de lógica. Aqui se revela a primeira ignorância do colunista: a difundida tese kantiana de que é “impossível ensinar filosofia, mas só é possível ensinar a filosofar”. Ignora o cronista o fato de que nas nossas ações pedagógicas mediamos conteúdos que permitem aos jovens estudantes compreenderem o fundamento de todas as ciências a partir da filosofia; ignora o analista o fato de que aos ensinarmos a filosofar oferecemos condições de possibilidades aos jovens estudantes para pensar além da lógica binária que restringe a ação política aos conceitos iluministas de direita e de esquerda. Ignora o jurista o fato de que ensinar a filosofar é desconfiar das opiniões próprias porque elas não podem sustentar verdades objetivas sem o mínimo de conteúdo e capacidade argumentativa. Ignora o fato de que ensinar a filosofar é também um exercício de tolerância para com as crenças políticas, religiosas e morais dos Outros e um exercício de autocrítica para com as próprias crenças. Ignora o jurisconsulto o fato de que filosofar com adolescentes é permitir uma reflexão sobre a justiça e o direito a partir dos conteúdos da antiguíssima mitologia grega até obras contemporâneas como a “O que resta de Auschwitz” de Giorgio Agamben. Ignora o advogado o fato de que há métodos pedagógicos criados pelo filósofo estadunidense Matthew Lipman (1922-2010) e publicado através de obras como Philosophy for Children de 1976 e Thinking Children and Education de 1993 que permitem ensinar a filosofar desde a infância e que são amplamente usados por escolas particulares brasileiras para ensinar crianças a filosofar desde o Ensino Fundamental.  Por fim, recobramos um dito antigo que diz “a boca fala sempre para os ouvidos que estão mais perto” e atualizamos para a era digital: “escreve-se textos para o leitor que está mais perto” para que a ignorância e a crença não se transformem em opiniões públicas e perigosas.


Ângelo, professor de filosofia com licenciatura plena e especialista em educação.
Arlindo , professor de filosofia com licenciatura plena e mestre em Educação.
Edgar, professor de filosofia com licenciatura plena e especialista em educação. 
José, professor de filosofia com licenciatura plena e mestre em Educação.
Marcos, professor de filosofia com licenciatura plena e doutorando em educação pela UFSC.

Sergio, professor de filosofia com licenciatura plena e doutorando em filosofia pela UNISINOS – RS. 

5 de jan. de 2016

O CRISTIANISMO E A SEPARAÇÃO ENTRE PEDAGOGIA E PSICAGOGIA

O CRISTIANISMO E A SEPARAÇÃO ENTRE PEDAGOGIA E PSICAGOGIA



              Na aula de 10 de março de 1982 no Collége de France, instituição de ensino fundada em 1530 em Paris, o professor filósofo Michel Foucault estabeleceu uma importante relação entre Pedagogia e Psicagogia. Sim, Foucault não era só homossexual como é conhecido pelo público da cultura geral, mas ministrou aulas entre 1970 e março 1984, dois meses antes de morrer. Ah, estas aulas eram frequentadas por mais de 500 alunos ouvintes, graças aos quais temos acesso a tão valoroso conteúdo. Mas vamos voltar ao ponto: deixemos o “professeur” Foucault literalmente explicar: 
Chamemos, se quisermos, "pedagógica" a transmissão de uma verdade que tem por função dotar um sujeito qualquer de aptidões, capacidades, saberes, etc., que ele antes não possuía e que deverá possuir no final desta relação pedagógica. Se chamamos "pedagógica", portanto, esta relação que consiste em dotar um sujeito qualquer de uma série de aptidões previamente definidas, podemos, creio, chamar "psicagógica" a transmissão de uma verdade que não tem por função dotar um sujeito qualquer de aptidões, etc., mas modificar o modo de ser do sujeito a quem nos endereçamos.
            Portanto, estamos diante de uma ciência – A Pedagogia – que dota o sujeito de uma técnica qualquer que antes ele não possuía e que pela atuação de um pedagogo comprometido com a verdade do que ensina passou a dominar. Por outro lado, temos uma ciência que não atua no nível do domínio de uma técnica, mas na formação do caráter, a constituição moral do sujeito – A Psicagogia. Poderíamos perguntar: estas duas maneiras de “formar” um sujeito aconteciam de maneira separada? Privilegiava-se uma em detrimento da outra? Havia uma hierarquia entre estes saberes? A resposta é NÃO! As duas faziam parte da Paideia – o ideal Greco-romano de formação humana integral.
         Mas por que se separaram? “Professeur” Foucault responde: Digamos o seguinte: na Antiguidade greco-romana, na relação psicagógica, o peso essencial da verdade, a necessidade do dizer verdadeiro, as regras às quais é preciso submeter-se ao dizer a verdade, para dizer a verdade e para que a verdade possa produzir seu efeito - a saber, o de mutação do modo de ser do sujeito -, tudo isto incide essencialmente sobre o lado do mestre, do diretor, ou ainda do amigo, de todo modo, o lado de quem aconselha. 
             E mais adiante, o velho mestre fala sobre as exigências que recaem sobre o pedagogo: Pois, na pedagogia, o mestre [é mestre] enquanto detém a verdade, formula a verdade, formula-a como convém e segundo regras que são intrínsecas ao discurso verdadeiro que ele transmite. A verdade e as obrigações quanto à verdade estão do lado do mestre. Isto vale em toda a pedagogia. Vale certamente na pedagogia antiga, como vale também no que poderíamos chamar de psicagogia antiga.
             Na forma Greco-romana a exigência de dizer a verdade, a disciplina da palavra verdadeira, as obrigações da verdade recaem sobre o mestre, o conselheiro... Contudo no cristianismo, do mestre, do condutor de almas exige-se somente a investidura de um poder. Por isso Foucault dirá:
O cristianismo, por sua vez, irá desvincular a psicagogia da pedagogia, solicitando à alma - à alma que é psicagogizada, que é conduzida - que diga uma verdade; verdade que somente ela pode dizer, que somente ela detém e que não constitui o único, mas é um dos elementos fundamentais da operação pela qual seu modo de ser será modificado. É nisto que consistirá a confissão cristã.
         Portanto, e já me alonguei demais, a obrigação da verdade passa daquele que dirige na pedagogia e na psicagogia Greco-romana, para o conduzido na espiritualidade cristã. Ele, o conduzido, deverá confessar a verdade perante o mestre instituído. Talvez esteja nesta separação a genealogia dos sistemas avaliativos atuais, da separação entre ensino técnico e formação moral e política dos indivíduos... são apenas “????”
            Para terminar, o “Professeur” explica para os mais de 500 ouvintes: na espiritualidade cristã é o sujeito guiado que deve estar presente no interior do discurso verdadeiro como objeto de seu próprio discurso verdadeiro. No discurso daquele que é guiado, o sujeito da enunciação deve ser o referente do enunciado: é a definição da confissão. Na filosofia greco-romana, ao contrário, quem deve estar presente no discurso verdadeiro é aquele que dirige.

Todas estas explicações foram retiradas do curso:
FOUCAULT, Michael. L’Hermeneutique du sujet. Paris: Seuil, 2001.


17 de nov. de 2015

COVARDIA MORAL E “CORAGEM” VIRTUAL.


Se você, assim como eu, é usuário de redes sociais já constatou que os fatos e as notícias sobre os fatos estão em segundo ou terceiro plano. O acontecimento, o evento, o grande feito de alguém é o que menos importa nesta hierarquia maluca do nosso tempo. As notícias sobre os fatos até tem alguma importância na medida em que despertam para a “coragem” uma massa de covardes morais. Nesta linha uma notícia não tem o escopo principal de informar os leitores, os espectadores e usuários de plataformas sociais. As notícias também não buscam descrever com minúcia um acontecimento qualquer no mundo. Neste sentido, as notícias que circulam por aí nas redes sociais servem para instigar revolucionários, certificar “cientistas políticos”, “armar” pessoas violentas, mas todos em um plano virtual. Para constatar essa questão, basta ver que as pessoas “gastam” mais tempo lendo os comentários e, não raras às vezes, nem leem a notícia e o fato narrado não tem quase nenhuma importância. Que fique claro: esta crítica tem pouco a ver com os editores, mas sim muito com o tipo de leitor que circula por aí – os corajosos virtuais, mas que no fundo são um bando de covardes morais.
            Por que covardes morais? Por que corajosos virtuais? Parto do princípio de que a moral nasce da constituição interna do sujeito, são os valores que ele elege para si, são as regras que impõe para ele mesmo e que as vivencia no plano de sua subjetividade, mas que tem a coragem de testemunhar no âmbito social sem que nenhuma lei o obrigue a fazê-lo. Neste sentido, a moral não é imposta de fora, mas é criação na liberdade do sujeito. Minha questão é a seguinte: quantos destes revoltados online, revolucionários de “feicibuque” cientistas políticos formados a partir de grandes manuais da mídia estariam dispostos e teriam coragem de sustentar suas “teses” em um debate real, vis a vis...
            A coragem é uma virtude bastante difundida e a ser conquistada pelo hábito entre os gregos antigos. Por ser uma virtude, ela supunha outras virtudes irmãs: a justiça, a prudência e a temperança. O indivíduo corajoso, para os gregos antigos, era aquele que indiferente do estatuto social ou do cargo que possuía praticava e testemunha perante os outros uma vida virtuosa. O “corajoso virtual” dos nossos dias é incapaz de ouvir os ditames de uma ação justa, desconhece por inteiro atitudes prudentes e a temperança tem muito mais a ver com os “reality shows” de culinária. Por isso, é capaz de tudo escrever numa rede virtual, mas é um covarde moral no momento real em que é confrontado e precisa ser forte o suficiente para sustentar suas hipóteses desprovidas probidade intelectual. Que coragem moral prevaleça sobre a ‘aparente’ coragem virtual.
             

29 de ago. de 2015

Em uma sala de aula... da vida!


– Professor ouvi dizer que no Estado mais politizado do Brasil o governador resolveu parcelar o salário dos servidores?
– É, uns ganham R$ 600,00 de Salário, outros R$ 4,600,00 … de vale alimentação! Os primeiros na sua grande maioria são trabalhadores da educação. Já os segundos são servidores da justiça.
– Professor, Justiça?
– É Justiça... E há quem diga que estamos a construir a passadas largas uma “Pátria Educadora”, nada mais justo!
– Querido prof. não é lá neste glorioso estado que os deputados estaduais gastaram 10 vezes mais combustível que as viaturas da PM?
– É sim! Trata-se da ordem da razão: mais deputados viajando e menos polícia ostensiva.
– Mas professor, me parece que a educação precisa disputar espaços de toda ordem com banqueiros, magistrados, um poder legislativo que legisla para si e os desmandos de um governador que não sabe o que faz!?
– ah, o governador... sabe o que faz sim! O partido dele é o Rio Grande, os Eleitores que o elegeram votaram com o coração, ouviram o conselho da Nona... Sabe, teve até professor que foi no Tumelero procurar o piso salarial da categoria. Dizem que ele vai aumentar o ICMS.
– Professor, mas este estado não tem senadores que defende os interesses do povo?
– Meu querido, você não aprende mesmo: dois dos três senadores são representantes de um importante grupo de comunicação em rádio, televisão, jornal e plataformas digitais, cujo interesse é o lucro dos senhores patrões!

(Após esta aula, o velho professor pediu as contas)


– O texto acima é uma ficção, qualquer correspondência com o real é apenas uma coincidência da vida.  

2 de mai. de 2015

O ESTADO, O CASSETETE E O PROFESSOR...


    Não é de hoje que o Estado é um imbróglio: envolve pessoas, governo, leis e um determinado território, mas não sabemos exatamente do que se trata e que tipo de forças operam no Estado. A confusão toda se encontra no fato de que muitas vezes, e não é de hoje, o governo não é legítimo e, não raro, cria leis ou retira leis que afetam diretamente todos os aspectos da vida das pessoas. O Estado moderno tem três compromissos essenciais: a segurança, a saúde e a educação. O último compromisso acontece nas instituições escolares e através dos professores...
  Se tu fores curioso e pesquisar um pouco verás que lá na Grécia Clássica, o Estado Antigo bania pessoas, criava leis em proveito de si e de alguns poucos – “os homens de bem” e, inclusive, condenava a morte os seus cidadãos. O território onde o governo exerce seu poder e o povo usufrui de seus direitos é também outra celeuma. Muitos “Estados Modernos” protegem fortemente o seu território contra o ingresso de “povos” diferentes. Esta proteção gera uma leva de pessoas expropriadas do estado de direito, clandestinos de toda ordem com uma vida desnuda, precária que são colocados no território da exceção e não no espaço do direito. Veja mais em Giogio Agamben e seu trabalho atual de dimensões planetárias. Somado a toda esta problemática encontramos outro ponto nevrálgico: o Estado é o único ente que tem a legitimidade e legalidade para usar a violência, ou seja, tem o direito de ter e de usar “o cassetete”. Não faz isso com uma mão invisível, mas com a mão de pessoas, usa vidas, exerce o domínio de mentes e forma corpos bem treinados: no caso a polícia.
 Pois bem, escrevo neste momento não sobre o conceito de Estado, mas de um estado da federação: o do Paraná o qual não está livre do que escrevi acima, aliás, está atolado até o pescoço naquelas questões tratadas brevemente no parágrafo anterior. Na última semana, o governo do Paraná representado pelo seu governador perdeu o pouco de legitimidade que possuía. 
   Neste momento, Beto Richa, só tem o direito de governar, mas nenhuma legitimidade para fazê-lo. Trata-se de um sujeito que quer retirar direitos, usa o monopólio da violência para reprimir seus professores, forma a mente e os corpos de sua guarda. Ah,  e os professores!? Os professores desde a Grécia Clássica não conseguem ter um relacionamento harmonioso com o Estado e com a Cidadania. Lá, não eram considerados nem sábios e nem cidadãos, mas vendilhões do conhecimento por cobrarem pela atividade do ensino. Porém, com os seus métodos de ensino permitiam as pessoas ver as coisas de outro modo e relativizarem as posições absolutistas dos governantes e dos cidadãos das Polis.
  Os colegas do Paraná estão experimentando na carne as práticas governamentais que retiram direitos e aplicam “o monopólio do cassetete” através de seus policiais. Temos vidas desnudas e a política atravessando todas dimensões da vida – de policiais e de professores: os professores que foram literalmente açoitados em praça pública e os policiais que, em nome da hierarquia e da obediência militar, tiveram seus corpos formados para usarem “o cassetete” e as suas mentes configuradas para obedecer a ordem direta dos seus superiores e não incorrerem em crime contra o código penal militar. 
  Sou professor, não posso estar na trincheira com os colegas paranaenses e tenho apenas as palavras para repudiar os atos do governo paranaense e me solidarizar com os colegas vitimados pela violência estatal. Para finalizar, creio que a convocação de uma greve geral seria um contraponto a tamanho desmando na condução da política de um estado. Mas como tenho somete o uso da palavra fica então o desafio para quem ousou chegar até o fim deste texto: se tu concordas comigo podemos debater e aprofundar a questão. Se não concordas podemos debater e analisar a questão de outro modo e alguma coisa estaremos fazendo pelos professores paranaenses! 

8 de nov. de 2014

Por que não somos todos macacos?

Por que não somos todos macacos?


Fui acometido pela pergunta "por que não somos todos macacos?" o que motivou a escrever um texto, que publico a seguir para ser lido e criticado:
              Há um processo de segmentação, divisão, separação e o pior de hierarquização na sociedade ocidental. Este processo não é uma prerrogativa pós-moderna, da nossa cultura. Ouso a afirmar que esta divisão e hierarquização têm seus pressupostos no mundo grego antigo: lá já havia uma separação entre cidadão (homem adulto nascido e criado na cidade) e os demais (escravos, estrangeiros, mulheres e crianças). Nós pós-modernos somos filhos deste modelo de cidadania. Ou seja, há os que detêm os meios de produção (cultural e econômico), e teoricamente pagam mais impostos e julgam-se que possuem mais cidadania e que, portanto, seria possível estabelecer uma hierarquização entre os que possuem capital econômico-cultural e os que não possuem. Deste modo começa uma separação e ao mesmo tempo se estabelece um princípio de hierarquização... Por isso alguns sujeitos julgam que têm mais direitos que outros sujeitos.
            Esta segmentação opera com o conceito de raça, cor, sexo, classe social, origem étnica, espaço geográfico, religião sagrada e pagã que desemboca em uma valoração entre bons e ruins, brancos (bons) e negros (maus) geralmente o bandido nos filmes e o caçado pela polícia na vida real; homens (plenos cidadãos) e mulheres (ainda violadas nos seus direitos) e homens (ainda com mais acesso a salários melhores); trabalhadores (ainda há muitos escravizados e sem direitos trabalhistas) e patrões (que não respeitam direitos trabalhistas: cf. o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=vN_B5wFT9ks )   Entre colonizadores europeus (os que se julgam os formadores de direitos e de fato do Brasil no século XIX) e os Negros (aqueles que vieram para o Brasil por ousadia do destino) mas que de fato não tiveram nenhum arbítrio para decidir se vinham ou não para o continente americano. No último mês esta divisão transformou-se em xenofobia e operou na política: os sulistas (eleitores conservadores e direitistas raivosos) avaliaram a si mesmo superiores aos eleitores nordestinos tidos como ignorantes e alienados. Na questão religiosa o eventos de separação e valoração são muitos e os eventos preconceituosos também.
            Portanto, a questão “por que não somos todos macacos?” encontra sua resposta no triste fato de que separamos as pessoas segundo suas cores, “suas raças”, seus espaços geográficos, suas posses do capital econômico-cultural, suas práticas religiosas e após proceder esta segmentação operamos com uma ideia de valoração e deste modo “não somos todos macacos” apenas alguns “infelizes” são macacos segundo o princípio de que alguns tem mais valor que outros ... 

21 de abr. de 2014

A crise de sentido e de fundamento!

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Vive-se, no mundo contemporâneo, uma contínua atmosfera de tensão, de “morte” dos valores, de ausência de sentido, de “bancarrota” dos Grandes Ideais – Deus, Bem, Justiça e Verdade. Autores, livros, obras clássicas, propostas filosóficas apontam para a crise, a dissolução do sentido, o niilismo, o fim dos grandes valores da Modernidade que afetam o Ser Humano contemporâneo e suas Instituições.
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A ausência de bases firmes que garantam uma ação ética livre e uma consciência moral clara geram a insegurança. Sucede que a falta de sentido “ronda”, se é que já não destruiu o que resta de possibilidade para a fundamentação da moral e da ética. Isto indica que as instituições positivas, como os tribunais, não garantem de fato a justiça. O tradicional modelo familiar, como é conhecido, não assegura a priori a felicidade das pessoas. As instituições religiosas não proporcionam mais a confiança metafísica da escolha certa do Bem em negação do mal previamente determinado. Mesmo os paradigmas científicos padecem pela ausência de um princípio seguro e de uma “tábua” de valores sólidos e estabelecidos.
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Fenômeno semelhante acontece com os códigos de direito e a ação política que não asseguram a liberdade e a igualdade – valores supremos da modernidade, o que resulta na dissonância entre a existência concreta das pessoas e as páginas dos códigos de ética aplicada, de direito e de moral.
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Decorre que a ética e a moral estão também inseridas no contexto de vazio apontado acima. Para averiguar basta analisar os valores como a liberdade, a justiça, a veracidade, a felicidade e a bondade e constatar que estes estão profundamente abalados. Isso tem uma razão clara: as referências tradicionais que os sustentavam em outros tempos, hoje não os sustentam mais. Os sistemas filosóficos que outrora justificavam e fundamentavam o agir e a avaliação moral, ruíram...





15 de nov. de 2013

Contrato Originário em Kant


O CONTRATO ORIGINÁRIO COMO FUNDAMENTO RACIONAL DO ESTADO CIVIL EM KANT[1].

Sérgio Fernando Maciel Corrêa[2]

Resumo: este artigo tem por objetivo discutir a ideia de contrato originário na primeira parte da Obra Metafísica dos Costumes do filósofo Immanuel Kant, na qual está contemplada a sua Doutrina do Direito. Para tal, no primeiro momento será feita uma análise das possibilidades de posse segundo o direito natural o qual é caracterizado pela ação empírica dos sujeitos sobre as coisas. Do mesmo modo tratar-se-á da posse segundo o direito positivo, a qual é entendida como posse perene das coisas. A seguir será efetuada uma apreciação da ideia de contrato originário como um postulado da razão, relacionando a filosofia do direito de Kant ao seu projeto de fundamentação metafísica da moralidade. Por fim, será apresentada a ideia da constituição do Estado Civil, por meio do contrato originário, como um ente externo e garantidor do direito inato do ser humano – a liberdade.

Palavras-chave: Direito Natural; Contrato Originário; Moral; Liberdade; Estado Civil;



[1] Artigo publicado no  III CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA MORAL E POLÍTICA Universidade Federal de Pelotas – UFPel. 


[2] É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia São Boaventura de Curitiba, PR, especialista em educação pela UnC – Universidade do Contestado campus Curitibanos, SC, mestrando em filosofia pela UFPel e professor de ensino básico técnico e tecnológico do IF-Sul, Campus Camaquã, RS.

27 de ago. de 2013

FOUCAULT E NIETZSCHE E A CRÍTICA AO SUJEITO, À CONSCIÊNCIA E À LIBERDADE


O procedimento genealógico, tanto em Foucault, quanto em Nietzsche permite a problematização dos postulados metafísicos que se construíram em torno da noção de verdade, de sujeito e de liberdade. Para criarem seus conceitos, os filósofos se colocam como críticos da tradição. A partir desta filosofia crítica é que postulamos a hipótese da interpretação, da apreciação que concebe a verdade não mais como um referente absoluto, invariável e padronizado – uma perfeita identidade. Neste caso, não existe a interpretação clara e distinta, portanto certa. Deste modo a interpretação moral acontece a partir da corporeidade (semiótica de afetos) e não a partir do ideal da verdade. Outro fator importante para tecer uma crítica à noção de sujeito é a descrição da origem da consciência postulada pelos filósofos. Estes são os temas que pretendemos desenvolver por meio de uma leitura imanente dos nossos filósofos.
Palavras-chave: crítica; genealogia; metafísica; interpretação.
Comunicação apresentada no XXXIV Encontros Nietzsche (PUC-Campinas!

19 de jun. de 2013

O ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO DE PAUL KARL FEYERABEND


      O presente trabalho tem por objetivo investigar algumas razões e justificativas que levaram Paul Karl Feyerabend a compreender a ciência e a sua evolução como empreendimento anárquico. Para alcançar este objetivo será necessário analisar a máxima feyerabendiana que assevera: “O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale”. Do mesmo modo, o trabalho examinará os argumentos que o autor de Contra o Método elabora ao sustentar a possibilidade da ciência progredir, atuando contraindutivamente.
      Paul Feyerabend está situado em um ambiente propício à crítica da ciência. Para compreender isso basta recorrer a alguns teóricos que são seus contemporâneos. Karl Popper, por exemplo, sustenta que a ciência progride por meio de um processo de refutabilidade de teorias estabelecidas, seguida da conjectura de novas teorias. É o chamado método da falseabilidade. Outro exemplo aventado é o de Tomas Kuhn. Este epistemólogo fala de uma ciência revolucionária que busca superar a ciência vigente justamente naquilo que ela não pode resolver. Para Kuhn o progresso da ciência acontece precisamente na ruptura de modelos tradicionais por modelos revolucionários. Ora, se Feyerabend segue o mesmo caminho das refutações científicas e das revoluções científicas como então propõe o seu anarquismo epistemológico?
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Palavras-chave: Oportunismo; Liberdade; Anarquismo; Publicidade; Progresso; Ciência
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REFERÊNCIAS
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FEYERABEND, Paul Karl. Contra o Método: esboço de uma teoria anárquico da teoria do conhecimento. (Trad.: Leônidas Hegenberg) Rio de Janeiro: F. Alves, 1977. 
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CHALMERS, Alan F. O Que é Ciência Afinal? (Raul Filker) Brasília: Brasiliense, 1993. 
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KNNELER, George Frederick. A Ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. 

8 de jun. de 2013

A GENEALOGIA E A ÉTICA DO CUIDADO DE SI EM NIETZSCHE


A GENEALOGIA E A ÉTICA DO CUIDADO DE SI EM NIETZSCHE

Sérgio Fernando M. Corrêa1
Mestrando em filosofia pela UF-Pel e professor do IF-Sul, Campus Camaquã-RS.

Resumo: O propósito deste projeto de pesquisa é analisar a Moral sob a perspectiva da Interpretação Genealógica e Naturalista desenvolvida por Nietzsche. Nisto tenciona verificar a crítica feita por Nietzsche às tentativas de fundamentação a priori da moral feita pela tradição metafísica. Num segundo momento intenta-se evidenciar como Michel Foucault se apropriou da “ferramenta” desenvolvida por Nietzsche para construir sua própria genealogia e propor a ‘ética’ da arte de viver e do cuidado de si.

Palavras-chave: Interpretação, Genealogia, Moral, Ética, Naturalismo.

Résumé: Le but de ce projet de recherche est d'analyser le point de vue moral sous l'interprétation de généalogie naturaliste et développé par Nietzsche. En cela, dans l’intention de de vérifier la critique par des tentatives de Nietzsche à des a priori de la morale faites par la tradition métaphysique. Dans un second moment tente de montrer comment Michel Foucault approprié «l'outil» mis au point par Nietzsche pour construire votre propre généalogie et de proposer l' « éthique » de l'art de vivre et du le souci de soi.

Mots-clés: Interprétation, Généalogie, Moral, Éthique, Naturalisme.

Zusammenfassung: Der Zweck dieses Forschungsprojektes ist es, die Moral über die Perspektive der genealogischen und naturalistischen Interpretation die von Nietzsche entwickelt wurde zu analysieren. Es möchte die von Nietzsche erbrachte Kritik über die Begründung a priori der Moral von der metaphysischen Tradition überprüfen. Ein zweites Ziel des Forschungsprojektes will zeigen wie Michel Foucault das von Nietzsche entwickelte „Werkzeug“ benutzt, um eine eigene Genealogie zu bauen und die,, Ethik“ über der Kunst zu leben so wie für sich selbst Fürsorge zu treffen.

Schlüsselwort: Interpretation, Genealogie, Moral, Ethik, Naturalismus.

1 E-mail: fer.ser29@gmail.com

4 de jun. de 2013

Resumo - Criação, Literatura e Filosofia


O MUNDO DA VIDA E A CRIAÇÃO NA LITERATURA: O CASO DE GRACILIANO RAMOS EM VIDAS SECAS.

Sérgio Fernando Maciel Corrêa*
E-mail: fer.ser29@gmail.com

O tema geral deste trabalho é a literatura sob o olhar de uma Filosofia da Arte e propõe-se, não obstante, a refletir filosoficamente sobre a literatura de acordo com a proposta metodológica dedutiva que principia de uma ordem geral e culmina numa plano particularizado. Para dar conta desta proposta partiremos da estrutura em geral do conceito de literatura para então analisarmos em uma obra específica – Vidas Secas de Graciliano Ramos. O primeiro ponto desta apreciação tratará dos critérios que permitem a alguém distinguir um texto literário de um não literário. Também faremos uma análise da origem da Arte Literária, isto é, ‘qual sua maior matéria prima’. Tendo em vista estes pressupostos, o segundo ponto então, se ocupará de uma possível conceitualização da literatura.

No terceiro momento, já perseguindo o objetivo específico do trabalho nos deteremos em um literato específico, no caso: Graciliano Ramos. Em primeiro lugar nos prestaremos a uma passada de ‘vista’ nas Obras produzidas por Graciliano Ramos e nos principais aspectos de sua biografia. Em seguida estreitaremos ainda mais a condução do trabalho, pois este irá se deter em uma Obra particular de Graciliano Ramos: Vidas Secas. Neste momento nos concentraremos na análise estrutural da obra, qual sua origem etc. Em seguida traremos uma reflexão sobre a criação artística a partir das experiências vividas para finalmente verticalizar no capítulo Baleia, de Vidas Secas.

Ao percorrer todos estes passos queremos, ainda que de forma limitada, nos apropriar de uma visão bem geral e primária do que de fato é a Literatura. Do mesmo modo, pretendemos abordar qual é a origem da Literatura, isto é, como ela se configura. Desta maneira acreditamos que esta breve análise do artista Graciliano Ramos e de sua obra Vidas Secas, vai corroborar com as proposições postuladas para este trabalho.

Palavras-chave: Literatura; Antropologia; Obra de Arte; Ética; Existência.

* Professor de EBTT da disciplina de filosofia no Instituto Federal de Educação Sul Rio-Grandense, Campus Camaquã – RS. Mestrando do programa de pós-graduação em filosofia da UFPel, Pelotas, RS.

3 de ago. de 2012

A CRISE E A NOSTALGIA - O MITO DA INTERDISCPLINARIDADE.

A CRISE E A NOSTALGIA - O MITO DA INTERDISCPLINARIDADE.

    Não é necessário frequentar os bancos acadêmicos para constatar a crise pela qual a educação formal está passando - para tal feito, basta apenas acompanhar algum tipo de noticiário. Olha que nem falo aqui da (des) valorização dos profissionais da educação, mas, sim, dos diversos 'ramos' do conhecimento. No interior das instituições de ensino, educadores se deparam com problemas referentes à fragmentação dos saberes, à falta de conexão entre os diversos ‘ramos’ do conhecimento. É a ideia de divisão, de isolamento e de segmentação do objeto do conhecimento defendida pelo cartesianismo de Descartes no início da modernidade. Esta especialização dos saberes é apontada, por muitos estudiosos ,como um dos fatores determinantes que levam a evasão escolar, o fracasso na aprendizagem, a falta de base dos educandos.
               Contudo, esta superespecialização das disciplinas é apenas uma das muitas facetas da crise que a educação e a sociedade do nosso tempo enfrentam. Escrever com propriedade sobre a nossa época é uma tarefa quase que impossível, pois não temos uma distância razoável para refletirmos com qualidade. Todavia, sentimos que não existem mais verdades absolutas, não temos sistemas filosóficos capazes de dar conta da totalidade do real e as grandes narrativas perderam força. Para tal basta irmos à praça pública e fazermos questionarmos às pessoas sobre a noção de Verdade, Beleza, Bondade, Justiça... etc. Perceberemos que são conceitos relativos e até antagônicos.
              Diante disso, em geral temos duas atitudes: uma que cai no relativismo, pois se não há verdade e nem justiça absoluta, então não há nenhuma justiça, nenhuma verdade e tudo é permitido. Outra, é a nostalgia! Depreende-se desta atitutude sentimentos de saudosismo do tempo quando o certo e o errado, o justo e o injusto eram claramente definidos, a esquerda e a direita eram polarizadas.
               Esta nostalgia me parece ser o princípio que fundamenta a busca pela Interdisciplinaridade[1]. É o desejo pela totalidade, a pretensão de unicidade, a visão do todo que foi perdida e que buscamos integrar com todas as nossas forças. E aqui nos deparamos com um “porém:” buscamos a Interdisciplinaridade por uma necessidade urgente diante de uma crise? Ou a buscamos por que temos a convicção de que ela é essencial aos processos educacionais? Não Sei! Mas isso revela um antagonismo que pode ser observado no artigo 3º da LDB no qual se encontram os princípios da educação brasileira e está escrito de forma clara: “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”. Este princípio coloca a pluralidade de ideias frente ao nosso desejo pela unicidade, portanto, manifestando um antagonismo da busca pela unicidade integradora dos conhecimentos.
           São as provocações que se colocam em forma de imperativo aos educadores do século XXI.
               


[1]  Os termos Inter, Trans, Pluri, Multi e Disciplina que formam as palavras Interdisciplinaridade, Transdisciplinaridade, Pluridisciplinaridade e multidisciplinaridade significam: Disciplina seria uma saber específico enquadrado dentro de uma visão única de mundo. Multidisciplinar e Pluridisciplinar é o estudo de um mesmo objeto por várias disciplinas. Transdisciplinar é um estudo de um objeto através e além de várias disciplinas... supõe-se aqui não a totalidade, mas a complexidade, a diversidade!! Já a interdisciplinaridade é o anseio pela totalidade, seria a junção de várias disciplinas para estudar um objeto onde ainda prevalece a ideia de disciplina.

22 de mai. de 2012

Neoliberalismo e educação



O texto da professora Eneida Shiroma, cujo título é Os arautos da reforma e a consolidação do consenso: anos de 1990 estabelece uma reflexão sobre os modelos políticos dos anos 90. Trata-se de uma visão sobre o neoliberalismo e as suas conseqüências para a educação contemporânea. Nesta linha destaca-se o Mercado como regulador das relações econômicas entre os paises. Mercado este que terá a primazia na seleção de pessoas. Ou seja, os melhores preparados são o que se dão bem no neoliberalismo. Ora, é deste modo de pensar que surge a ideia de que a educação é o único meio de construir um país desenvolvido, já que seus cidadãos teriam condições de decodificar os códigos da modernidade.
            Com o intuito de dar condições de possibilidade a todos os cidadãos de terem acesso a educação é que nos anos 90 foram promovidas várias conferências sobre educação de proporções mundiais. Destas conferências brotam metas educacionais que foram imputadas a todas as nações consideradas em desenvolvimento.  Tudo isso é claro repercutiu no sistema educacional brasileiro – um país emergente. Deste modo todas as fichas foram apostadas na educação. Até mesmo os orçamentos nacionais foram amarrados a fim de garantirem um mínimo necessário de investimentos em educação.
            Das recomendações que brotaram dos organismos internacionais surgiram inúmeras medidas no Brasil com o intuito de implantar uma reforma substancial no sistema educacional. Enfim, o que se buscou foi um consenso público-privado em torno da questão educacional. O fio condutor destas medidas foi sempre o mercado de trabalho e inserção dos educandos neste. Nisto criou-se uma expectativa de que o acesso a todos a educação básica garantiria a inserção dos trabalhadores no mercado de trabalho. Porém, alguns mais realistas não cultivaram esta esperança.
            A verdade é que nada foi esgotado em torno da questão educacional. Muitas discussões ainda estão sem um rumo definido. O Estado, mesmo que mínimo, ainda precisa ser mais incisivo nas suas propostas. Evidente que não pode deixar de ouvir e de discutir com a sociedade civil organizada. E mais, sem o comprometimento dos educadores reforma nenhuma é implantada de maneira eficiente. É claro que este comprometimento passa por planos de carreiras; melhores salários; investimentos na formação dos professores. Portanto, há um consenso. Contudo precisa ser efetivado na empiria dos educandos.