29 de nov de 2011

Nunca antes na História desse País

Nunca na História desse país”: Uso da Linguagem e a Opinião Pública. 



    No artigo 37 da Constituição Federal se encontram os 5 princípios da Administração Pública: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência. Pois bem, quero me deter ao princípio da Publicidade e de como as autoridades usam da linguagem para publicar os seus atos e assim in-FORMAR a opinião pública.
    Quem leu 1984 de George Orwell lembra que o Estado (Grande Irmão) manipulava as consciências com a inversão do significado das palavras e até mesmo a redução de vocabulário. Neste modelo, a Política usava das palavras para obscurecer a Opinião Pública. E na nossa democracia, a linguagem usada pelas autoridades políticas obscurece ou esclarece a opinião pública?
    O fato é que não há inocentes no uso da linguagem. Regimes totalitários como o Terceiro Reich, usaram da linguagem para inculcar a ideologia nazista e disseminar o antissemitismo junto ao povo alemão. Há estudos científicos que comprovam que até mesmo as vítimas da Gestapo usavam a linguagem do Terceiro Reich. É o poder usando de mecanismos inconscientes para se valer.
    A verdade é que as palavras aparecem e desaparecem, mudam de sentido e de ênfase, se encadeiam de diversas formas, emitem mensagens diferentes ao longo do tempo. Por exemplo, quando ouvíamos o jargão do Ex. Presidente Lula: “nunca na história desse país” isso contribuía para tomarmos consciência da complexidade econômica, política e social do nosso país, ou a “desgastada” expressão servia para simplificar tal complexidade e tornar públicos os seus atos enquanto presidente da república?    
    Há quem diga que vivemos uma cegueira pública, uma preguiça mental pública. A questão é... até que ponto o uso da linguagem pelas autoridades para dar publicidade aos seus atos contribui com a tal cegueira pública?

9 de nov de 2011

Cultura Brasileira

O Mito Fundador - resenha


Ó Grande Pátria Desimportante em nenhum instante eu vou te trair. (Cazuza)

O texto Com fé e Orgulho da professora Marilena Chauí aborda com muita propriedade aquilo que é comum à maioria dos brasileiros. Trata-se, no primeiro momento, de uma narrativa do que geralmente aprendemos na escola sobre os símbolos que representam o Brasil (Hino, Bandeira, Futebol...). Também faz parte deste primeiro momento uma narrativa sobre aquilo que nós, os brasileiros, trazemos de senso comum[1] sobre o nosso país. É o que está colocado no texto como crença generalizada[2]. Porém esta visão dos brasileiros é carregada de ambigüidades e contradições que no texto são chamadas de “Mito Fundador”.

            O Mito fundador do qual fala a professora Marilena Chauí parece representar a força fundadora que fez e faz os brasileiros terem uma representação tão positiva do Brasil mesmo ao lado de fatos que mostram na prática exatamente o contrário dessa visão “romântica” da realidade. Trata-se das ideologias[3] que estão subjacentes nos momentos de formação e de construção da História. Estas ideologias, segundo o texto, tendem a se repetir e a se readaptar para manter uma ordem desejada e preestabelecida pelas classes dominantes. É o que vai ser analisado na seqüência como o título de Verdeamarelismo.

             O texto Verdeamarelismo - fundamental para compreender o mito fundador - começa fazendo uma análise comparativa do que significou para os brasileiros a conquista do campeonato mundial de futebol de 1958 em relação ao campeonato de 1970. Isto com o objetivo de mostrar o que é verdeamarelismo. Trata-se, segundo o texto, da construção de uma imagem celebrativa do país elaborada pelas classes dominantes. Portanto, nada melhor do que o futebol - “a paixão nacional” - para construir esta imagem celebrativa.

            A questão que o texto busca mostrar é justamente a da construção de uma imagem nacional – o verdeamarelismo. Contudo, não é uma imagem nacional livre de ideologias e forças dominadoras. É a imagem que a classe dominante quer e deseja que todos tenham do país. Trata-se, portanto, de uma visão passada pelo texto muito interessante. Esta visão está embasada em interpretações de fatos históricos que nos levam a pensar criticamente o real significado dos símbolos nacionais.

            O verdeamarelismo aparece como uma força metafísica que age sorrateiramente através dos símbolos e paixões nacionais conquistando mentes, alienando intenções e o pior: dá créditos à Natureza, ao Estado e a Deus. Estes seriam os únicos elementos com poder suficiente para mover e transformar a História. Ora, isso é muito significativo, pois retira da sociedade brasileira e dos sujeitos que a compõe a ação capaz de transformar e fazer a História do Brasil rumar ao progresso que, paradoxalmente, é apregoado pelo verdeamarelismo. 

            Ora, é por estas razões que a autora do texto fala de mito fundador, pois quando se enaltece a Deus e a Natureza como sujeitos principais da ação criadora estamos no campo da mitologia. Aqui o texto nos leva a concluir que a “nação brasileira” é produto da ação criadora deste seres que foram enaltecidos pelo forte Leviatã[4] brasileiro, isto é, o Estado brasileiro constituído e formado pela classe dominante. São questões muito pertinentes colocadas pelo texto e nos levam a essas reflexões e conclusões.

              



           





[1] Por senso comum entendemos a primeira compreensão do mundo resultante da herança de um grupo social e das experiências atuais que continuam sendo efetuadas. Pelo senso comum, fazemos julgamentos, estabelecemos projetos de vida, adquirimos convicções e confiança para agir.

[2] Cf.: CHAUI, 1996, p. 08. Nesta página há uma descrição bem pontuada sobre a visão do brasileiro sobre o Brasil. 

[3] Ainda que o conceito de ideologia seja discutível, trata-se de um conjunto de proposições elaboradas, na sociedade burguesa, com a finalidade de fazer aparentar os interesses da classe dominante com o interesse coletivo, construindo uma hegemonia da classe dominante.

[4] Tomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII, desenvolveu a idéia de um Estado forte, opressor e totalitário a partir da figura mitológica do Leviatã, um deus poderosíssimo e indestrutível.

1 de nov de 2011

ENSINO DE FILOSOFIA

A Filosofia no Ensino Médio

Publico aqui a entrevista do Professor Silvio Gallo, um dos maiores pesquisadores sobre ensino de filosofia no Brasil. A filosofia ainda é vista, por algumas pessoas, como intrusa nos curriculos de ensino médio. A entrevista é esclarecedora, e, portanto, recomendo a leitura.




Entrevista com o professor Silvio Gallo

Ensino de Filosofia: os principais desafios
No dia 02 de junho de 2008, o presidente em exercício, José Alencar, sancionou a lei 11.684 que determinou a presença da Filosofia como disciplina obrigatória nas três séries do Ensino Médio brasileiro. Para quem olhava de fora, o evento parecia o fim de um longo processo. Para aqueles que há anos lutavam pela aprovação dessa lei, ele representou o início de uma nova luta: garantir a qualidade no ensino da Filosofia. O Prof. Silvio Gallo (UNICAMP), em entrevista à seção Filosofia na Escola da ANPOF, fala sobre os atuais desafios que enfrentam os profissionais ligados ao ensino dessa disciplina e apresenta em linhas gerias os resultados de suas pesquisas sobre este tema.

Por Juliano Orlandi
Juliano Orlandi – Como o professor avalia o processo político que culminou na aprovação da Lei 11.684/08 e o retorno da Filosofia aos currículos do Ensino Médio brasileiro?
Silvio Gallo - Muitos falam em “volta da Filosofia” aos currículos, mas penso que isso seja um equívoco; como pode “voltar” algo que nunca esteve? Porque a Filosofia nunca esteve nos currículos como está agora, de forma plena e universal, nos três anos do Ensino Médio, em todos os estados brasileiros. O que tivemos em outros momentos da história foram presenças particulares da Filosofia, em uma ou outra série, em uma ou outra modalidade da educação média, ou então de forma optativa para as escolas. Desta forma como foi aprovada pela Lei 11684/08, é uma situação inédita em nossa história.
JO – Como então avaliar essa nova situação?
SG É uma situação muito interessante para quem pensa que o ensino da Filosofia pode oferecer algum diferencial e aportar qualidade à formação dos jovens estudantes. Mas, por outro lado, é um momento também muito complicado, pois temos que mostrar a que viemos. Se a obrigatoriedade é fruto de uma luta que começou na década de 1970 e teve muitos momentos distintos, é também verdade que se a Filosofia não se consolidar como disciplina na educação média poderá ser retirada novamente, com uma “canetada” qualquer. Se a mobilização e a luta para sua inclusão foram grandes, penso que o trabalho agora é ainda maior, pois temos que garantir que a Filosofia seja ensinada efetivamente e o seja de modo significativo. Se não conseguirmos provar, com um bom trabalho que a Filosofia é uma contribuição importante para a formação dos jovens brasileiros, ela será retirada. E aí talvez não tenha volta possível...
JO – O que podem fazer as mantenedoras das instituições educacionais para contribuir na consolidação da Filosofia no Ensino Médio?
SG – Para as mantenedoras, penso que a principal tarefa seja a de comprometer-se com a contratação de bons professores de Filosofia, com formação específica na área. Sabemos que não poucas escolas, tanto públicas quanto privadas, atribuem as aulas de Filosofia a outros profissionais, como forma de preencher sua carga de trabalho, ou mesmo porque não encontram professores com formação específica em Filosofia. Porém, nenhum dos casos se justifica. Há profissionais habilitados em Filosofia na maior parte das regiões brasileiras; naquelas em que há carência, é dever das universidades preparar esses profissionais. E sabemos que desde a aprovação já foram abertos vários cursos de licenciatura em Filosofia.
JO – Além da contratação de profissionais com formação na área, o que mais as mantenedoras podem fazer?
SG – Tem havido um movimento por parte de algumas redes públicas estaduais de definir uma matriz curricular para a Filosofia, acompanhada ou não de produção de material didático. Destaco dois casos: o do estado do Paraná, que fez este movimento ainda antes da aprovação da obrigatoriedade da disciplina, em um processo de ampla participação dos professores da rede, com consultoria de universidades. Após a definição da matriz curricular, foi produzido, por uma equipe de professores de Filosofia do Ensino Médio, um livro didático, editado e publicado pelo próprio Estado e distribuído para toda a rede. E o caso do estado de São Paulo, que também definiu uma matriz curricular, com uma equipe de especialistas, que em seguida produziu uma série de “cadernos do professor” e depois de “cadernos do aluno”, definindo o percurso a ser trabalhado nas aulas de Filosofia.
JO – O professor avalia positivamente esses dois casos?
SG – Não vou entrar no mérito da análise destas duas iniciativas; ambas possuem seus pontos fortes e seus pontos fracos e não teríamos espaço aqui para isso. Mas é importante destacar que a opção paulista recebeu muitas críticas por não ouvir os professores, que sentiram como uma “imposição” o material produzido. De toda forma, penso que a definição de um currículo básico e a produção ou escolha de um material didático apropriado é uma necessidade, desde que cumpra-se aquela primeira necessidade: a contratação de professores com formação específica em Filosofia.
JO – No que diz respeito aos materiais didáticos para o ensino da Filosofia, muitos professores se queixam que eles são escassos. Como o professor avalia essa questão?
SG – Tempos atrás, um orientando de doutorado fez um amplo levantamento e análise dos livros didáticos disponíveis no mercado editorial brasileiro, e chegamos a um número próximo a trinta, o que não é pouco. Penso que hoje já tenhamos mais do que isso. A questão é que, como a Filosofia é diversa, diversos também são nossos materiais didáticos. Temos uma predominância de livros que oferecem uma organização temática para o ensino da Filosofia, mas temos também vários manuais que propõem uma organização histórica. Penso haver materiais de grande qualidade, mas também textos de qualidade ruim. Daí a necessidade de um professor com conhecimento da área, que saiba escolher um material de boa qualidade, que se adapte bem à realidade e necessidade de seus alunos. E, mais importante, um professor que saiba usar o material didático como apoio e instrumento e não como centro do processo, como uma espécie de “muleta” para suas aulas. Infelizmente, é isso que vemos quando o professor de Filosofia não tem formação na área ou não é bem formado. E aí não tem material didático que resolva, não há aula de Filosofia que resista...
JO – Em relação aos professores das outras disciplinas, há alguma dificuldade especial enfrentada pelos docentes de Filosofia no Ensino Médio?
SG – Penso que os problemas práticos do professor de Filosofia não sejam diferentes dos problemas práticos de qualquer professor... Hoje, especialmente, a dificuldade de leitura por parte dos estudantes, um desinteresse generalizado pela escola e por aquilo que ela oferece. A questão é que o professor não pode idealizar a escola, idealizar o aluno. As grandes críticas que vemos hoje à escola devem-se ao fato de que ela não cabe naquilo que é idealizado pelos professores. Talvez a maior qualidade de um bom professor seja seu senso de realidade e a capacidade de atuar nas condições reais da escola. Diria, então, que a questão está na criatividade e na capacidade de adaptação do professor, que precisa encontrar, em cada turma que leciona, o tom correto, a forma de penetrar em seu universo. Para isso, é necessário ter um repertório bastante amplo, do qual o professor disporá na medida das necessidades de cada situação.
JO – O professor julga que os cursos de Licenciatura em Filosofia têm oferecido esse repertório aos seus estudantes?
SG – Minha opinião é que esse é nosso grande desafio hoje. De forma geral – e aqui corro o risco de toda generalização – nossos cursos nunca se esforçaram, de fato, para formar professores de Filosofia para o Ensino Médio. Primeiro, porque não havia aulas; depois, porque elas eram escassas. Mas, também, porque em larga medida os departamentos de Filosofia pensavam que sua função era ensinar Filosofia; ensinar a ensinar seria a tarefa de pedagogos, dos departamentos de Educação. Vi isso em algumas universidades em que trabalhei e em muitas universidades que visitei e penso que seja um completo equívoco. A formação do professor de Filosofia – e penso que isso possa ser estendido a outras disciplinas – não pode dissociar o conhecimento específico da Filosofia do conhecimento do campo educativo. É preciso que um atravesse o outro, que um contamine o outro. Quando um professor dá uma aula sobre a teoria da predicação em Aristóteles (para tomar um exemplo qualquer) é necessário que ele se preocupe também em como este tema pode ser trabalhado com um adolescente no Ensino Médio. Porque ensinar neste nível não pode ser uma reprodução direta de como se ensina na universidade. Se há saberes pedagógicos específicos que o licenciando em Filosofia vai aprender com o campo da Educação, isso não significa que os professores de Filosofia possam se descomprometer com a tarefa do ensino da Filosofia.
JO – Em sua opinião, portanto, os cursos de Licenciatura em Filosofia devem se adaptar à nova realidade do Ensino Médio.
SG – Penso que após a aprovação da obrigatoriedade da disciplina Filosofia, nossos cursos de Licenciatura estão se repensando e precisam se repensar. A formação de bons professores é que poderá consolidar a Filosofia no Ensino Médio. Sem bons professores de Filosofia isso não acontecerá. E não teremos bons professores de Filosofia se não tivermos bons cursos de Licenciatura em Filosofia. Sintetizando, penso que precisamos admitir que, historicamente, nossos cursos não estiveram comprometidos com a formação de professores para a educação média e, portanto, essa formação nunca foi, efetivamente, boa. E que hoje é absolutamente necessário que nos empenhemos em levar a qualidade dos bons cursos de bacharelado em Filosofia também para a licenciatura.
JO – Essa reorientação dos cursos de licenciatura significaria uma preocupação maior com a prática docente e com a antecipação dos problemas que os profissionais enfrentariam no cotidiano escolar?
SG – Penso que os problemas, de fato, não podem ser antecipados, muito menos resolvidos. Penso que o professor não se forma apenas na universidade, ele não sai pronto. Ele precisa sair com uma boa base, mas é sendo professor que ele se torna, de fato, professor. Isto é, há muito da prática docente que só aprendemos na própria prática docente. Não adianta nos dizerem como é, como se faz ou nos encherem de milhares de horas de estágios de observação da sala de aula. Isso tudo é importante, na justa medida, mas nada disso nos prepara em absoluto para os desafios da sala de aula. Precisamos chegar ao ensino com uma boa bagagem, para que possamos, na prática, aprender a lidar com essa bagagem. Ninguém pode fazer esse percurso por nós, por cada um de nós.
JO – No que consistiria essa bagagem?
SG – O que compete a um bom curso de Licenciatura em Filosofia é dotar o futuro professor de um sólido e amplo conhecimento da Filosofia, especialmente que ele aprenda a orientar-se na Filosofia, a orientar-se no pensamento, bem como um bom conhecimento da realidade escolar, que faça com que ele não idealize a escola e o aluno. E, sobretudo, que ele esteja o tempo todo preocupado em como ensinar aquilo que ele aprende de Filosofia, que não faça isso desconectado da sua tarefa futura de ensinar. Deste modo, penso que a universidade pode preparar o futuro professor não para antecipar ou resolver de antemão os problemas práticos que aparecerão, mas para que ele saiba identificar os problemas e tenha estofo e bagagem para resolvê-los, na medida em que aparecerem.
JO – E, no que diz respeito às concepções de Filosofia e de Ensino da Filosofia, as Licenciaturas ofereceram qual orientação aos professores que hoje estão em atividade no Ensino Médio?
SG – Pensando especificamente no Ensino de Filosofia, há uma ideia que se generalizou dentre nós: aquela que afirma que a Filosofia desenvolve o “senso crítico” dos estudantes. Esse discurso foi central nas décadas de 1970 e 1980, na medida em que a luta pela inclusão da Filosofia nos currículos era parte da luta contra a ditadura. Porém, parece-me que essa posição é complicada. Por um lado, porque se a crítica é inerente à atividade filosófica, politicamente sabemos que, ao longo da história, se ela serviu para questionar os poderes instituídos, serviu também para garantir essa instituição. E por outro, porque se defendemos uma educação crítica, essa tarefa não pode ser exclusiva da Filosofia, mas precisa ser assumida por todas as disciplinas. Na minha experiência, há uma certa dificuldade dos estudantes em assumir uma concepção de Filosofia (o que chamei, antes, de orientar-se no pensamento), na medida em que nossos cursos, mais comprometidos com o bacharelado do que com a licenciatura (isto é, mais comprometidos em formar o pesquisador do que o professor) não investem nisso. E isso dificulta, em muito, a atuação do professor, pois, para ensinar Filosofia é preciso colocar-se na Filosofia, movimentar-se com desenvoltura por sua história. Assim, na dificuldade de uma visão mais clara, eu diria que predomina uma concepção da Filosofia como formação crítica, às vezes uma visão da Filosofia como História da Filosofia, que mais dificultam do que ajudam a produzir uma boa aula de Filosofia.
JO – Do ponto de vista prático (didática, metodologia, uso de materiais, etc.), como essas concepções se concretizam na escola?
SG – Sem condições de tempo e espaço para dar uma resposta mais aprofundada, limito-me a dizer que a ideia de Filosofia como formação crítica não raramente leva a um esvaziamento da aula de Filosofia, ela se tornando um mero debate de opiniões. Há professores que levam para a aula um recorte de jornal, por exemplo, ou pedem que os alunos levem recortes de jornais ou revistas, para promover um debate sobre um determinado tema cotidiano. Isso pode ser muito interessante, mas esvazia a aula de um conteúdo propriamente filosófico... Por outro lado, uma aula de Filosofia centrada na História da Filosofia pode garantir um acesso ao conteúdo específico, isto é, as ideias e sistemas produzidos pelos filósofos, mas por sua vez pode se tornar desinteressante para os estudantes, como apenas mais um conjunto de informações a serem decoradas e esquecidas logo depois da prova...
JO – Como é possível evitar os problemas originados por essas concepções?
SG – Como afirmei antes, penso que para ensinar é preciso colocar-se em uma determinada perspectiva da Filosofia, orientar-se no pensamento. Apenas assim podemos transitar pela diversidade e multiplicidade da Filosofia sem nos perdermos. Particularmente, encontro na perspectiva de Filosofia apresentada por Deleuze e Guattari em O que é a filosofia?, obra publicada em 1991, uma possibilidade interessante. Como professor de Filosofia, tenho procurado trabalhar a partir dessa ideia, de que a filosofia consiste em uma atividade de criação conceitual. E, ao pensar o ensino da Filosofia no nível médio, pareceu-me que ela poderia ser muito operativa.
JO – Em que consiste especificamente o ensino da Filosofia pensado a partir das concepções de Deleuze e Guattari?
SG – Se tomamos então a Filosofia como uma atividade criativa, isso significa que ensinar essa disciplina do pensamento não pode ser apenas transmitir conhecimentos e informações. Se a filosofia é atividade de criação, é necessário convidar a fazer essa atividade, isto é, convidar a pensar filosoficamente. E se pensar filosoficamente significa pensar através de conceitos, então o ensino da Filosofia precisa ser, de algum modo, um acesso aos conceitos, uma apreensão dos conceitos produzidos pelos filósofos, mas também um convite à criação de conceitos próprios. Assim, essa noção de Filosofia parece nos proporcionar uma perspectiva do ensino desta disciplina que não seja uma mera transmissão de informações, por um lado, mas por outro, que não seja também uma atividade esvaziada do propriamente filosófico, resolvendo aquela questão que expus anteriormente: ou um “ensino ativo” esvaziado de filosofia ou um ensino cheio de filosofia, mas enciclopédico, esvaziado de atividade. Essa noção nos dá a possibilidade de um ensino da Filosofia que não separa o produto (conceito) do processo do filosofar. Só se aprendem conceitos fazendo o movimento de produzi-los. E só se produzem conceitos se aprendemos as diferentes formas que os filósofos inventaram para o fazer.
JO – Do ponto de vista prático, como concretizar essa concepção?
SG – Tenho investido em duas metodologias distintas. A primeira, pensada para partir do problema e chegar ao conceito, organizo em quatro passos didáticos. Parte-se de uma sensibilização para um determinado tema, passa-se a uma problematização do tema, a uma investigação na história da filosofia em busca de como diferentes filósofos pensaram a questão e que conceitos criarão para, por fim, chegar a uma conceituação, que tanto pode ser refazer o caminho de produção conceitual feito por um determinado filósofo como um processo próprio de criação conceitual. Uma segunda metodologia, tenho denominado “método regressivo”, pois tratar-se-ia de partir do conceito para chegar ao problema. Como o problema filosófico nunca é claro em um texto de filosofia, a atividade seria a de estudar o texto, apreender o conceito ou conceitos criados pelo filósofo para, a partir deles, investigar qual teria sido o problema ou conjunto de problemas que levaram o filósofo a criá-los.
JO – Em sua opinião, seguindo essas metodologias, os professores do Ensino Médio conseguirão dar boas aulas de filosofia?
SG – Em um ou noutro caso, trata-se de uma metodologia aberta, que não tem a intenção de oferecer ao professor um manual de como agir, uma definição absoluta dos rumos da aula, mas uma espécie de bússola, que aponta uma direção, mas não define estritamente o caminho. A aula precisa ser sempre uma criação do professor, que ele faz a partir de sua bagagem filosófica, de seus interesses, de seus problemas, de forma articulada com os interesses e problemas de cada turma de estudantes. Apenas assim o ensino de Filosofia pode ser um aprendizado significativo.

Silvio Gallo é professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e desenvolve pesquisas sobre o ensino de Filosofia. Entre suas diversas obras, destacam-se: Subjetividade, Ideologia e Educação (Editora Alínea, 2009), Deleuze & a Educação (Editora Autêntica, 2008) e Pedagogia Libertária - anarquistas, anarquismos e educação (Editora Imaginário/ Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007).